Raras vezes ao longo da legislatura pudemos ouvir o “optimista irritante” António Costa a produzir um aviso tão prudente e lúcido como o que estes dias deixou na entrevista à Visão. “Não podemos ter a ilusão de que passámos do inferno para o paraíso”, disse o primeiro-ministro, num registo que de alguma forma compromete o “virar de página da austeridade”, a relativização da degradação da qualidade dos serviços públicos, a insistência no volume de criação de emprego sem a associar à qualidade dos postos de trabalho criados, a recusa em reconhecer que o aumento nominal da dívida é um problema, que o país está a pagar uma carga fiscal que compromete o futuro, entre muitos outros floreados que os socialistas associam à governação. Se o país está melhor do que em 2015, é prudente reconhecer que está longe de ter recuperado os danos de uma década perdida e os custos de um ajustamento violento. O “paraíso” é, de facto, uma ilusão.

A mudança de registo de um António Costa deslumbrado não é de agora. Foi-se notando e acentuando conforme o país foi conseguindo resultados na frente económica e financeira. Em vésperas de campanha eleitoral, a mudança é particularmente bem-vinda. Porque trava uma corrida a promessas irrealistas. Porque torna o debate que vai ajudar às escolhas eleitorais dos cidadãos mais sensato. E porque deixa no país uma percepção mais ajustada dos constrangimentos que o afectam. Pedro Passos Coelho foi capaz de levar os portugueses a perceber que viviam numa emergência e jamais saiu desse discurso, mesmo quando era necessário confiar num tempo diferente; António Costa foi capaz de definir, com alguma dose de demagogia e dissimulação, é certo, os contornos desse tempo e parece hoje mais disposto a evitar ilusões.

Mário Centeno deixou no debate sobre o estado da nação a promessa de que Portugal não regressaria ao horror dos resgates. Nada o prenuncia, de facto. Mas para lá da bonança, é bom que se continue a precaver o regresso de uma borrasca. Sinais não faltam: este ano o país vai voltar à registar uma balança externa negativa; o endividamento das famílias dispara e a poupança desapareceu; a produtividade da economia recuou; a infraestrutura pública e os serviços rebentam; Portugal perde terreno face aos países europeus com quem tem de competir. De facto, estamos longe do inferno e longe do paraíso. Não será o purgatório, mas convém não pecar para não regressarmos ao lugar onde mora o diabo.




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