Pelo menos duas companhias artísticas cancelaram as presenças de Plácido Domingo e a Ópera de Los Angeles anunciou que iria procurar “aconselhamento externo” para investigar os relatos de alegado assédio sexual que envolvem o cantor lírico nos últimos 30 anos, tornados conhecidos na terça-feira numa reportagem da agência noticiosa norte-americana Associated Press (AP).

A primeira companhia a anunciar o cancelamento de um espectáculo com o tenor e barítono Plácido Domingo foi a associação de Orquestras de Filadélfia que, num comunicado, se mostrou comprometida com a criação de “um ambiente seguro, solidário, respeitoso e apropriado para todos os trabalhadores, artistas colaboradores e compositores e ainda para o nosso público e comunidades”. Por isso, o convite a Plácido Domingo, que iria actuar na gala de abertura da orquestra de Filadélfia, a 18 de Setembro, foi formalmente retirado.

Não foi a única: horas mais tarde também a Ópera de São Francisco anunciou o cancelamento do concerto que assinalaria o 50.º aniversário do cantor lírico na companhia, a acontecer em Outubro. “A decisão de cancelar o concerto foi tomada depois das informações recentes sobre as múltiplas acusações de assédio sexual”, confirmou a companhia, citada pelo El País. “Ainda que os supostos incidentes não tivessem acontecido na Ópera de São Francisco, a companhia não pode apresentar o artista” no seu palco, cita o mesmo jornal.

O concerto de comemoração de meio século de colaboração com Domingo estava a ser promovido como um “um evento único e especial” com “um dos cantores da história da Ópera”.

Ópera de Los Angeles investiga “alegações preocupantes”

Já a Ópera de Los Angeles anunciou que ia contratar uma organização externa para investigar as “alegações preocupantes” contra o cantor. “A Ópera tem sólidas políticas e protocolos de recursos humanos. De acordo com os mesmos, vai obter aconselhamento externo sobre as acusações contra Plácido Domingo”, anunciou em comunicado. Apesar disso, há elogios: “Plácido Domingo tem sido uma força criativa dinâmica na Ópera de LA e da cultura artística de Los Angeles há mais de três décadas”, cita a AP.

“Ainda assim, estamos empenhados em fazer tudo o que podemos para fomentar um ambiente profissional e colaborativo onde todos os nossos empregados e artistas se sintam igualmente confortáveis, valorizados e respeitados.”

De acordo com a reportagem da AP, pelo menos três mulheres dizem ter-se cruzado com o tenor na Ópera de Los Angeles – incluindo a cantora que acusa o tenor de lhe ter posto a mão debaixo da saia, depois de ter sido convidada para ir ao seu apartamento com o pretexto de que seria para ensaiar uma ária.

Já o MET de Nova Iorque informou, em comunicado, que espera os resultados da investigação da Ópera de Los Angeles para “tomar decisões finais sobre o futuro de Plácido no MET” (onde tem um espectáculo marcado para o próximo mês), que leva “as acusações de assédio sexual e abuso de poder com extrema seriedade” e salienta que “Domingo nunca esteve numa posição onde podia influenciar as escolhas de casting de outras pessoas”. Apesar disso, a companhia mantém as três encenações de MacBeth (com Domingo a interpretar o papel do protagonista) para Setembro e Outubro.

Ópera de Washington afirma não ter recebido queixas

A Ópera de Washington – onde Plácido Domingo foi director artístico entre 1996 e 2003 e director-geral entre 2003 e 2011 – declarou, em comunicado conjunto com o Kennedy Center (detentor da ópera desde 2011), que “não recebeu queixas sobre o comportamento de Domingo antes da afiliação da Ópera ao Kennedy Center e não recebeu nenhuma desde então”. O centro acrescenta ainda que a empresa tem “políticas de tolerância zero no que respeita a assédio, discriminação ou abuso de qualquer tipo” e que considera “as alegações desta natureza de forma muito séria”.

De acordo com o relato de Patrícia Wulf – que foi, das nove mulheres que falaram à AP, a única que aceitou ser nomeada – a meio-soprano trabalhou com Plácido Domingo nessa Ópera e, durante a encenação da peça Fedora, protagonizada por Domingo e Mirella Freni. Enquanto trabalharam juntos, Domingo confrontou-a todas as noites com a mesma questão: “Tens mesmo de ir para casa esta noite?”

Seria “factualmente errado e moralmente irresponsável fazer juízos irreversíveis nesta altura”

Para já, a agenda para os próximos dias do cantor mantém-se inalterada. Os seus próximos espectáculos serão nos dias 25 e 31 de Agosto, no Festival de Salzburgo, na Áustria, onde irá interpretar Luisa Miller, de Verdi.

Contactada pela AP, a presidente do Festival de Salzburgo, Helga Rabl-Stadler, confirmou que o espectáculo se mantém: “Conheço Plácido Domingo há mais de 25 anos”, justificou Rabl-Stadler num comunicado. “Para além da sua competência artística, fiquei impressionada desde o início pela forma como tratou todos os empregados do festival.”

“Se as acusações contra ele também tivessem acontecido na sede do festival já teria tomado conhecimento”, continua. “Consideraria factualmente errado e moralmente irresponsável fazer juízos irreversíveis nesta altura.”

Pelo menos nove mulheres relatam histórias de alegado assédio sexual perpetradas pelo tenor Plácido Domingo, um dos cantores de ópera mais conhecidos do mundo, nos últimos 30 anos. De acordo com os testemunhos recolhidos pela AP, o cantor lírico terá pressionado várias mulheres a manterem relações sexuais com ele a troco de trabalho; quando recusavam, este prejudicava-as profissionalmente.

Oito cantoras e uma bailarina descreveram à AP situações em que foram assediadas sexualmente pelo cantor espanhol ao longo de mais de três décadas (desde meados dos anos 1980), normalmente em situações em que Plácido Domingo ocupava posições de gestão dentro das companhias. Uma delas relatou que Domingo enfiou a mão por debaixo da sua saia e outras três contaram que Domingo forçou beijos em camarins, quartos de hotel e em almoços de trabalho.

As mulheres que falaram à AP agora – e que, na grande maioria decidiram manter o anonimato – disseram que não contaram as suas histórias antes porque tinham medo de prejudicar as suas carreiras.




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